Notações para apreciar o Múltipla Dança
Por Ida Mara Freire (*)
Quem pode apreciar a dança? Apreciar está associada ao ato de dar valor a, ter em apreço, estimar, prezar, ter consideração por. O Múltipla Dança está repleto de atividades para o expectador vivenciar a experiência estética, que pode ser um deleite para uns e desafios para outros, só não vale a indiferença. Este evento propõe uma programação com o intuito de deixar na agenda cultural de Florianópolis uma marca indelével. As organizadoras do evento Marta Cesar e Jussara Xavier convictas de que o encontro é de relevância para a profissionalização da dança local, salientam “aproveitem este tempo-espaço.” É atenta a esse convite desejoso de receptividade que busco oferecer algumas razões para que a pessoa que aprecia ou quer apreciar essa experiência tão peculiar que é a dança, participe, desfrute desse Seminário que resiste brava e criativamente as intempéries econômicas, políticas e culturais. Então, aproveite e desperte a sua curiosidade para a diversidade de contextos, imagens, diálogos e dança. O Múltipla vai apresentar uma série de atividades relacionadas ao Ano da França no Brasil. Aguce sua percepção. Atente-se para um gesto sutil, o figurino, a iluminação, a cenografia dos distintos espetáculos de dança. Veja, escute, cheire, prove, saboreie, toque, perceba como essas sensações podem ser elementos da composição coreográfica. Esteja aberto para aprender. A dança contemporânea é uma oportunidade para conhecermos outras possibilidades de comunicação tais como as disponibilizados no Lounge do Acervo Mariposa. Aprofunde seus conhecimentos acerca do vídeodança ao participar da amostra Sul Americana do Dança em Foco. Compreenda ao prestigiar os Diálogos como a ação política e a economia afetam a dança, e como ocorre o processo individual de criação que vai do corpo à cena. A dança é sempre um convite de ver movimentos comuns em contextos distintos e criar movimentos originais em lugares comuns. Mas, isso só tem graça se for compartilhado, sem a sua presença a dança não acontece, seu olhar é que sustenta o gesto do artista. Apreciar a dança demanda uma disposição de buscar compreender como, para onde e com quem se movimenta isso já é assunto para outra notação. Aprecie o Múltipla...
(*) Professora
idamara@ced.ufsc.br
publicado no Jornal Notícias do Dia em 26 de maio de 2009
terça-feira, 26 de maio de 2009
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Programação Múltipla dança
Programação - Múltipla Dança 2009
site http://multipladanca.webnode.com/programacao/
Acompanhe ao lado a programação da 4a. edição do Múltipla Dança, que reúne artistas do Brasil e da França para espetáculos, palestras, diálogos, lançamentos de livros, mostra de vídeodança, entre outras atrações.
h 25/05 seg 26/05 ter 27/05 qua 28/05 qui 29/05 sex 30/05 sab
9h
Tubo de ensaio:
Residência Artística
com Nathalie Pubellier
Local: UDESC
Tubo de ensaio:
Residência Artística
com Nathalie Pubellier
Local: UDESC Tubo de ensaio:
Residência Artística
com Nathalie Pubellier
Local: UDESC Tubo de ensaio:
Residência Artística
com Nathalie Pubellier
Local: UDESC Tubo de ensaio:
Residência Artística
com Nathalie Pubellier
Local: UDESC Tubo de ensaio:
Residência Artística
com Nathalie Pubellier
Local: UDESC
14h
Tubo de ensaio: Masterclass com Nathalie Pubellier
Local: UFSC
Mostra de Vídeodança/
Dança em Foco, com Paulo Caldas
Local: SESC Prainha Diálogo 1 Diálogo 2
15h30
Apresentação do processo de criação e resultado da residência com Nathalie Pubellier.
Local: UDESC
16h Tubo de ensaio: Masterclass com Nathalie Pubellier
Local: UFSC
16h30 Palestra Christophe Martin
Local: SESC Prainha
Lançamento do Lounge Acervo Mariposa, com Talma Salem
Local: Fundação Badesc Lançamento da Série Documentos da Dança Francesa
Local: Fundação Badesc
Conferência dançada com Nathalie Pubellier
Local: UDESC
19h Lançamento de livros Balé Popular do Recife e Acervo Mariposa. Coquetel na Fundação Badesc
20h Espetáculo Meu Prazer,
Márcia Milhazes Cia de Dança (RJ)
Local: TAC
Ingressos: R$ 10 e R$5 Espetáculo Lecture -
Cena 11 (SC)
Local: TAC
Ingressos: R$ 10 e R$5
Mostra de bolso com artistas catarinenses
Local: TAC
Ingressos: R$ 10 e R$5
Espetáculo Quinteto - Staccato Cia de Dança (RJ)
Local: TAC
Ingressos: R$ 10 e R$5
site http://multipladanca.webnode.com/programacao/
Acompanhe ao lado a programação da 4a. edição do Múltipla Dança, que reúne artistas do Brasil e da França para espetáculos, palestras, diálogos, lançamentos de livros, mostra de vídeodança, entre outras atrações.
h 25/05 seg 26/05 ter 27/05 qua 28/05 qui 29/05 sex 30/05 sab
9h
Tubo de ensaio:
Residência Artística
com Nathalie Pubellier
Local: UDESC
Tubo de ensaio:
Residência Artística
com Nathalie Pubellier
Local: UDESC Tubo de ensaio:
Residência Artística
com Nathalie Pubellier
Local: UDESC Tubo de ensaio:
Residência Artística
com Nathalie Pubellier
Local: UDESC Tubo de ensaio:
Residência Artística
com Nathalie Pubellier
Local: UDESC Tubo de ensaio:
Residência Artística
com Nathalie Pubellier
Local: UDESC
14h
Tubo de ensaio: Masterclass com Nathalie Pubellier
Local: UFSC
Mostra de Vídeodança/
Dança em Foco, com Paulo Caldas
Local: SESC Prainha Diálogo 1 Diálogo 2
15h30
Apresentação do processo de criação e resultado da residência com Nathalie Pubellier.
Local: UDESC
16h Tubo de ensaio: Masterclass com Nathalie Pubellier
Local: UFSC
16h30 Palestra Christophe Martin
Local: SESC Prainha
Lançamento do Lounge Acervo Mariposa, com Talma Salem
Local: Fundação Badesc Lançamento da Série Documentos da Dança Francesa
Local: Fundação Badesc
Conferência dançada com Nathalie Pubellier
Local: UDESC
19h Lançamento de livros Balé Popular do Recife e Acervo Mariposa. Coquetel na Fundação Badesc
20h Espetáculo Meu Prazer,
Márcia Milhazes Cia de Dança (RJ)
Local: TAC
Ingressos: R$ 10 e R$5 Espetáculo Lecture -
Cena 11 (SC)
Local: TAC
Ingressos: R$ 10 e R$5
Mostra de bolso com artistas catarinenses
Local: TAC
Ingressos: R$ 10 e R$5
Espetáculo Quinteto - Staccato Cia de Dança (RJ)
Local: TAC
Ingressos: R$ 10 e R$5
múltipla dança
múltipla dança )))
((( 4ª edição - de 25 a 30 de maio de 2009
Contato
Aliança Francesa Florianópolis
R. Visconde de Ouro Preto, 282 - Centro.
Florianópolis-SC
(48) 3222 8925
multipladanca@terra.com.br
Novidades
2009-05-12 00:00
Inscrições abertas!
Projeto TUBO DE ENSAIO e Múltipla Dança - edição 2009 anunciam: estão abertas as inscrições para a Residência Artística e para a Masterclass com a corógrafa e bailarina francesa Nathalie Pubellier. Residência Artística com Nathalie Pubellier (Paris/França) Destinada preferencialmente a professores,...
((( 4ª edição - de 25 a 30 de maio de 2009
Contato
Aliança Francesa Florianópolis
R. Visconde de Ouro Preto, 282 - Centro.
Florianópolis-SC
(48) 3222 8925
multipladanca@terra.com.br
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2009-05-12 00:00
Inscrições abertas!
Projeto TUBO DE ENSAIO e Múltipla Dança - edição 2009 anunciam: estão abertas as inscrições para a Residência Artística e para a Masterclass com a corógrafa e bailarina francesa Nathalie Pubellier. Residência Artística com Nathalie Pubellier (Paris/França) Destinada preferencialmente a professores,...
terça-feira, 28 de abril de 2009
29 de Abril Dia da Dança
Na abertura do dia da dança em Florianópolis, estaremos conectados com o projeto Mapa D2 (divulgação em anexo) e para participar da video conferência você deve estar por volta das 14:30 no LED (UFSC).
A dinâmica do trabalho é a seguinte:
1) prof. sergio farias (vice-diretor do IHAC, instituto ao qual pertenço) fará a abertura oficial do evento (por volta de 5 minutos)
2) Ivani Santana falará sobre o mapa d2 (concepção, estrutura, programas futuros, realização do grupo de pesquisa poetica tecnologica na dança) apresentarei os pontos de publico remoto e agradecimentos (por favor enviem aqueles que devo agradecer por vcs - patrocinadores, financiadores etc.) e apresentarei o Konic (+- 10 minutes, espero que menos que isso)
3) rosa e alain do konic apresentarão o video deles (que ja estara online) e falarao brevemente do trabalho deles ( (+- 10 minutes, espero que menos que isso)
4) Serão então colocadas as duas questões a serem discutidas por todos os participantes da video conferência será explicada por Rosa e Alain e serão :
_____a. Considerando que diversos tipos de relacionamento tem ocorrido entre a dança e as novas mídias, podemos afirmar que essas formas de mediação entre esses campos de conhecimento provocaram mudanças no corpo do dançarino e/ou na forma de se criar dança?
_____b. O que nós pesquisadores e artistas criadores de dança com mediação tecnológica gostaríamos que a Internet possibilitasse tanto conceitualmente como tecnologicamente?
PARTICIPE!
Quando: 29 de abril
Lab. de Educação a Distância - LED
Departamento de Engenharia do Conhecimento - DEGC
Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC
Florianópolis - SC - Brasil
(fica atrás do Centro de Convenções da UFSC)
www.mapad2.ufba.br
A dinâmica do trabalho é a seguinte:
1) prof. sergio farias (vice-diretor do IHAC, instituto ao qual pertenço) fará a abertura oficial do evento (por volta de 5 minutos)
2) Ivani Santana falará sobre o mapa d2 (concepção, estrutura, programas futuros, realização do grupo de pesquisa poetica tecnologica na dança) apresentarei os pontos de publico remoto e agradecimentos (por favor enviem aqueles que devo agradecer por vcs - patrocinadores, financiadores etc.) e apresentarei o Konic (+- 10 minutes, espero que menos que isso)
3) rosa e alain do konic apresentarão o video deles (que ja estara online) e falarao brevemente do trabalho deles ( (+- 10 minutes, espero que menos que isso)
4) Serão então colocadas as duas questões a serem discutidas por todos os participantes da video conferência será explicada por Rosa e Alain e serão :
_____a. Considerando que diversos tipos de relacionamento tem ocorrido entre a dança e as novas mídias, podemos afirmar que essas formas de mediação entre esses campos de conhecimento provocaram mudanças no corpo do dançarino e/ou na forma de se criar dança?
_____b. O que nós pesquisadores e artistas criadores de dança com mediação tecnológica gostaríamos que a Internet possibilitasse tanto conceitualmente como tecnologicamente?
PARTICIPE!
Quando: 29 de abril
Lab. de Educação a Distância - LED
Departamento de Engenharia do Conhecimento - DEGC
Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC
Florianópolis - SC - Brasil
(fica atrás do Centro de Convenções da UFSC)
www.mapad2.ufba.br
quarta-feira, 1 de abril de 2009
sábado, 28 de fevereiro de 2009
O feminino e o Sagrado na dança
O feminino e o sagrado na dança: um ensaio sobre a coragem de ser
Autora: Ida Mara Freire, Universidade Federal de Santa Catarina
Palavras-chave: Dança, Existência, Fenomenologia; Título do Simpósio: Música e Dança: percepções sobre as práticas musicais e/ou de danças e suas relações de gênero.
Jornadas
No princípio... a quietude, o silêncio e a simplicidade; vivenciar a quietude do corpo, o silêncio da voz, e a simplicidade do pensamento.
A dança como jornada existencial é o tema deste ensaio. Em conversação com Paul Tillich (1886-1965), demais autoras e as Mulheres que jornadearam sua existência em minha companhia, descrevo esse processo criativo. O texto surge do projeto de pesquisa intitulado “Interrogação e Intuição: corpo, diferença e arte na formação de professores” (FREIRE, 2006). Nessa investigação propus um intento de dez jornadas que possibilitam a criação da própria dança a quem as perscrutem até o fim. A experiência envolve o corpo, a mente e o espírito; ou seja, a dança, a reflexão e a meditação. São dez encontros semanais com a duração de aproximadamente 50-60 minutos. Durante o intervalo de uma semana para a outra é proposto um conjunto de atividades criativas - por exemplo, escrita de um diário, recorte e colagem, desenho, dentre outras - com intuito de elaborar o trabalho corporal e preparar para a etapa seguinte. Trata-se de uma experiência lúdica, prazerosa e profunda com vistas ao bem-estar proveniente do auto-conhecimento. Até o momento foram aproximadamente 30 as participantes que fizeram as jornadas em dança. Sumariamente apresento o conteúdo do processo que será descrito mais detidamente a seguir. As cinco primeiras jornadas compreendem o momento de entrar no casulo, tecer ao redor de si mesma e conhecer o espaço vital. Voltar ao começo, despertar os sentidos, descobrir os movimentos e outras sensações, perceber o corpo como dádiva: a dança como coragem de ser. Na sexta e na sétima jornadas busca-se redescobrir o sentido da vida, recriar a própria existência: para isso é necessária a coragem de criar. Nas três últimas jornadas entrelaçam-se o feminino e o sagrado, celebramos a existência em sua plenitude e beleza: a liberdade do vôo exige a coragem de amar.
Dança enquanto jornada existencial: A coragem de Ser
A ação criadora investida na Primeira Jornada é conhecer o espaço vital. Partimos da noção de kinesfera, definida por Rudolf Laban (1879-1958) como a esfera do movimento ao redor do corpo É a esfera pessoal de movimento da qual nunca saímos, está sempre conosco, como uma carcaça. A kinesfera externa tem relação com a pele A interna tem relação com o esqueleto. A kinesfera média tem relação com os músculos. É gestual e formal. William Forsythe, propõe a noção de múltiplas kinesferas em diferentes partes do corpo, correspondendo a novos e diferentes centros do corpo (Rengel, 2000). O solo do casulo propõe as participantes dançar numa esfera escura. Buscar em seu corpo os registros, os traços gestuais, os fios existenciais e tecer com movimentos interligados, formando um bela trama, um aconchegante casulo. Um lugar que irá acolher, proteger, abrigar e transformar. Recomenda-se atentar para os fios, notar se são coloridos ou transparentes, sentir a textura e a espessura de cada fio. Tecer e dançar ao redor de si mesma.
Na Segunda Jornada a proposta está em reconhecer e vivenciar o movimento filogenético e ontogenético, ou seja, voltar ao começo. Nosso corpo se move como nossa mente se move. O desenvolvimento do movimento é trabalhado por Cohen (1997:4) tanto em termos filogenéticos como ontogenéticos. O desenvolvimento, explicita a autora, não é um processo linear, mas ocorre através de ondas sobrepostas, com estágios, contendo elementos de todos os outros. Em virtude de cada estágio estabelecer e apoiar o seu sucessivo, qualquer salto, interrupção ou falha para completar o estágio de desenvolvimento pode alterar o movimento e alinhamento na percepção, seqüência, organização, memória e criatividade. O desenvolvimento material inclui, além dos reflexos positivos, reações ajustadas e equilibradas, o padrão neurológico básico que é pautado por padrões de movimentos pré-vertebrados e vertebrados. O primeiro dos quatro padrões pré-vertebrados é a respiração celular, seguida da irradiação umbilical para a boca e do movimento pré-espinhal. Os doze padrões de movimentos vertebrados são baseados nos movimentos espinhal, homólogo, homolateral e contralateral. O sistema esquelético, formado por ossos e juntas, oferece ao nosso corpo a forma básica através da qual podemos nos locomover no espaço. Por esse meio, a mente também se organiza, promovendo suporte para nossos pensamentos.
“Entrei no casulo – e é lindo – porque de fato, sinto-me cuidando deste nascimento-existencial: quando teço o meu casulo, quando imprimo cores e texturas diferentes, quando me aproximo deste local que cuida de mim enquanto me transformo. Não quero ter pressa, aliás, quero sair dessa lógica de que estou sempre atrasada, quero perceber, sentir e viver o movimento com suas matizes e melodias quero o encontro que me leve ao reencontro comigo – quero me tornar uma pessoa melhor...” (“Aquela que Escuta” – participante)
O tema da Terceira Jornada diz respeito aos sentidos do corpo: sentidos, sentimentos e ação - percebo, sinto e ajo. O meticuloso exame que Cohen (1997) aplica a nossa percepção mostra que é através de nossos sentidos que recebemos informações de nosso ambiente interno (nós mesmos) e do nosso ambiente externo (os outros e o mundo). Aprendizagem é o processo pelo qual variamos nossa resposta para essa informação baseado no contexto de cada situação. O toque e o movimento são os primeiros sentidos a se desenvolverem. Eles estabelecem a linha de base para a futura percepção através do olfato, paladar, audição e visão. A boca é a primeira extremidade para segurar, soltar, medir, alcançar e retirar. Ela marca a fundação para os movimentos de outras extremidades (mãos, pés e cauda) e se desenvolve em relação aproximada com o nariz. O movimento da cabeça é iniciado pela boca e pelo nariz, os movimentos abaixo da cabeça são iniciados pelos ouvidos e olhos. O tônus auditivo e o tônus postural - a vibração e o movimento - são registrado pelo ouvido e são intimamente relacionados. A visão é dependente de vários sentidos, e por sua vez ajuda a integrar, formando padrões mais complexos. A percepção pode ser explorada em termos de inter-relação de diferentes sentidos e sua relação com o processo de desenvolvimento. Através da exploração do processo perceptivol, nós podemos expandir nossas escolhas em respostas a nós mesmos, aos outros e ao mundo no qual vivemos (COHEN, 1997, p. 6 e 7).
O contato com o mundo interior é a tarefa da Quarta Jornada. O contexto do movimento autêntico (ADLER, 2002) ensina que a descrição de uma experiência é distinta de uma fala sobre a experiência. Essa disciplina se dá em duas fases, relatadas a seguir:
Fase A: Solicito que a dançarina escolha um espaço na sala. Feche os olhos com a finalidade de expandir sua experiência de ouvir os níveis mais profundos de sua realidade sinestésica. Sua tarefa é responder a uma sensação, um impulso interior, uma energia vinda do inconsciente pessoal ou do inconsciente coletivo. A resposta para essa energia cria movimento que pode ser visível ou invisível para o observador. À medida que o trabalho se aprofunda, o movimento se torna mais organizado em padrões específicos, em partes específicas do corpo, dentro de ritmo e formas espaciais. Assim como a função da personalidade: mais emocional do que intuitiva, mais sensitiva que pensativa. Após cinco minutos, a experiência será concluída, chamarei seu nome e solicitarei que abra os seus olhos. Nós faremos um contato visual e a participante volta para o colchonete.
Fase B: Após se mover a participante pode: a) não falar e podemos ficar sentadas em silêncio; b) pode falar de sua chegada aqui e agora, qual foi o caminho percorrido de sua experiência original ao movimento; c) pode escolher encontrar palavras que são nascidas momento por momento, do próprio movimento. Se tentar esse caminho, recomendo que feche os olhos novamente; ao começar a descobrir palavras, que escolha algumas, presentes entre outras, tal como foram descobertas, ou pertencentes ao movimento quando estavam trabalhando no espaço. Mantendo o foco no interior e sentada em seu colchonete, solicito que fale com o verbo no tempo presente. O presente relembra-nos, prende-nos e encoraja-nos a permanecer no corpo, encarnadas, experiência em movimento, guiando-a até essa se tornar palavra. Tente lembrar o que o seu corpo está fazendo enquanto estava se movendo, e talvez a seqüência de movimento. Depois que falar, o observador lhe dirá, como testemunha, o que viu o seu corpo fazendo, incluindo a seqüência do seu movimento. Juntos articulam um mapa com nomes, lugares do corpo se movimentando no tempo e no espaço. Esse mapa é solo, a terra, o terreno essencial pelo qual as nossas experiências se tornam conhecidas.
“Ao descrever o movimento, “Brisa do Mar” diz: “Eu sinto os joelhos, flexiono os joelhos. Sinto os dedos dos pés. Mexo os quadris. Massageio a bunda, articulo as escápulas. Sacudo as escápulas. Flexiono e relaxo. Eu me abaixo. Sinto o meu corpo no chão. Eu me estendo e me encolho. Eu sinto o contato da perna ... suporte. Apóio os olhos (faz o gesto das mãos fechadas e punho apoiando os olhos) Sinto o cabelo (expressa movimentando os cabelos) Sinto coceira no cabelo. Toda... Aí eu torço para um lado, pro outro, flexionando os joelhos. Sinto a boca, começo a babar. Faço careta. Gosto de fazer careta. Acompanho com o quadril. Faço um som, movimento para frente, respiro, inspiro. Me abraço, me elevo. Desabraço. Final. Vai abrindo o corpo.” Comentários: pergunto como foi descrever o movimento no tempo presente. Responde: maior conexão entre mente e corpo. É como repetir abstratamente. Falo que notei que enquanto ela descrevia o próprio movimento ela fechava os olhos e por várias vezes repetia o movimento juntamente com a fala. Ela diz que ao fazer isso sentia mais a fluência do movimento, sentia-se guiada, sentia o movimento, a sensação.”
Na Quinta Jornada a ação criadora está em solicitar à dançarina que, em uma diagonal, vivencie a sua existência, do nascimento a sua morte. Nesse processo examina-se o tempo vivido como expressão e revelação criativa. Nesse momento ocorre uma profunda desconstrução e uma busca de sentido existencial. “Zum”, após realizar sua diagonal, comenta que vivenciou sentimentos de solidão, isolamento, sentiu que vivia como se a vida fosse uma tarefa. “Zum” chora. Comento que a vida é um dom. Na fenomenologia de Paul Tillich, a “coragem como um ato humano, como matéria de avaliação, é um conceito ético. Coragem como auto-afirmação do ser de alguém é um conceito ontológico. A coragem do ser é o ato ético no qual o homem afirma seu próprio ser a despeito daqueles elementos de sua existência que entram em conflito com sua auto-afirmação essencial.” (1976:3).
Dançar a vida: a coragem de criar
A coragem é necessária para que a mulher possa ser e vir a ser. Para que o eu seja é preciso afirmá-lo e comprometer-se. Essa é a diferença entre os seres humanos e os seres da natureza. O psicanalista Rollo May, ao comentar a perspectiva ontológica da coragem em Paul Tillich, exemplifica que o filhote transforma-se em gato por instinto. Nessa criatura, natureza e ser são idênticos. Mas um homem ou uma mulher torna-se humano por vontade própria e por seu compromisso com essa escolha. Os seres humanos conseguem valor e dignidade pelas múltiplas decisões que tomam diariamente. Essas decisões exigem coragem. Contudo, um tipo de coragem que não se expresse em desmandos de violência e que não dependa de afirmar o poder egocêntrico sobre as outras pessoas, “mas uma nova forma de coragem corporal: o uso do corpo, não para o desenvolvimento exagerado de músculos, mas para o cultivo da sensibilidade”, sugere May (1982). Nas Sexta Jornada a participante é convidada a elaborar a própria existência ao recriar a diagonal da vida. Busca-se, nessa etapa, criar o movimento da memória para o gesto, de uma experiência de vida específica para a imagem de um movimento formal: coreografar a história de vida (Albright, 1997). Ao comentar esta jornada, “Zum” sentiu gratidão e leveza ao invés de perceber a vida como uma tarefa árdua. Despertou...
Conhecer o corpo vivido, vivenciar o corpo emocional, reconhecer as próprias expressões são os desafios da Sétima Jornada. Proposta a partir do Rasaboxes, um treinamento psicofísico e um instrumento de composição para a performance criado por Richard Schechner e desenvolvida por Michele Minnick (2003), que combina teorias clássicas indianas de emoção e interpretação, pesquisas contemporâneas da psicologia, neurociência e o princípio do teórico francês Antonin Artaud, que propõe que atores sejam “atletas da emoção”. Rasa, que em Sânscrito significa “sabor”, no contexto da performance se refere a oito emoções básicas, suas combinações e como as mesmas são saboreadas pelo público. As boxes (caixas) são quadrados desenhados por linhas no chão, e cada caixa contém uma Rasa. Através de improvisações estruturadas, o Rasaboxes oferece ao jogador a possibilidade de pesquisar suas próprias expressões corporais a partir das Rasas básicas, desenvolver sua habilidade de passar de uma Rasa para outra instantaneamente e de combiná-las de forma a criar estados emocionais bastante complexos.
A dança como revelação: a coragem de amar
As experiências da Oitava Jornada se dão a partir da vinculação da dança com o Sagrado ou seja, primeiramente conceber o corpo como templo, em segundo lugar vivenciar a dança sagrada. Em terceiro lugar, dançar para transformar a existência. Essas vivências levam para a Nona Jornada, quando a dançarina é convidada a percorrer o caminho sagrado - bem descrito- na canção popular: “Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo.” Após caminhar no espaço sagrado; meditar. Perceber assim a nossa kinesfera como nosso espaço sagrado. Isso é permitir que o nosso feminino aflore, tornando-nos mais receptivas e mais aptas a magnetizar e a receber, em estado silencioso (SAMS, 2000). Discernir com o auxílio de nossos sentidos qual é a nossa verdade pessoal. E assim, criar a própria dança, que não se trata apenas de uma expressão do ser e sim uma revelação do ser. Na Décima Jornada, ao narrar e dançar sua história, a dançarina celebra a existência. Atenta-se para o belo presente no feminino e no sagrado. Dançar a vida como experiência estética - a vida como obra de arte. Essa jornada que leva ao centro de si é uma jornada que nos leva ao encontro do Outro e isso exige um novo tipo de coragem: a de amar e ser amada.
Referências Bibliográficas
ADLER, Janet. Offering from the conscious body: the discipline of Authentic Movement. Rochester: Inner Traditions. 2003
ALBRIGHT, Ann Cooper. Choreographing difference: the body and identity in contemporary dance. New England: Wesleyan. 1997
COHEN, Bonnie Bainbridge. Sensing, Feeling and Action: the experiential anatomy of body-mind centering. Northampton: Contact. 1997.
FREIRE, Ida Mara. Interrogação e Intuição: corpo, diferença e arte na formação de professores. Projeto de Pesquisa. Florianópolis SC: UFSC/ CED. 2006.
LABAN, Rudolf. Danza Educativa moderna. Buenos Aires: Paidós. 1984.
MAY, Rollo. A coragem de criar. Trad. Aulyde Rodrigues. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1982.
MINNICK, Michele Sheen. A dramaturgy of the flesh. Women e Performance, Issue 26, 13:2. 2003.
RENGEL, Lenira. Dicionário Laban. São Paulo: Annablume, 2003.
SAMS, Jamie. As cartas do caminho sagrado. Trad. Fábio Fernandes. Rio de Janeiro: Rocco. 2000.
TILLICH, Paul. A coragem de ser. Trad. Eglê Malheiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1976.
Autora: Ida Mara Freire, Universidade Federal de Santa Catarina
Palavras-chave: Dança, Existência, Fenomenologia; Título do Simpósio: Música e Dança: percepções sobre as práticas musicais e/ou de danças e suas relações de gênero.
Jornadas
No princípio... a quietude, o silêncio e a simplicidade; vivenciar a quietude do corpo, o silêncio da voz, e a simplicidade do pensamento.
A dança como jornada existencial é o tema deste ensaio. Em conversação com Paul Tillich (1886-1965), demais autoras e as Mulheres que jornadearam sua existência em minha companhia, descrevo esse processo criativo. O texto surge do projeto de pesquisa intitulado “Interrogação e Intuição: corpo, diferença e arte na formação de professores” (FREIRE, 2006). Nessa investigação propus um intento de dez jornadas que possibilitam a criação da própria dança a quem as perscrutem até o fim. A experiência envolve o corpo, a mente e o espírito; ou seja, a dança, a reflexão e a meditação. São dez encontros semanais com a duração de aproximadamente 50-60 minutos. Durante o intervalo de uma semana para a outra é proposto um conjunto de atividades criativas - por exemplo, escrita de um diário, recorte e colagem, desenho, dentre outras - com intuito de elaborar o trabalho corporal e preparar para a etapa seguinte. Trata-se de uma experiência lúdica, prazerosa e profunda com vistas ao bem-estar proveniente do auto-conhecimento. Até o momento foram aproximadamente 30 as participantes que fizeram as jornadas em dança. Sumariamente apresento o conteúdo do processo que será descrito mais detidamente a seguir. As cinco primeiras jornadas compreendem o momento de entrar no casulo, tecer ao redor de si mesma e conhecer o espaço vital. Voltar ao começo, despertar os sentidos, descobrir os movimentos e outras sensações, perceber o corpo como dádiva: a dança como coragem de ser. Na sexta e na sétima jornadas busca-se redescobrir o sentido da vida, recriar a própria existência: para isso é necessária a coragem de criar. Nas três últimas jornadas entrelaçam-se o feminino e o sagrado, celebramos a existência em sua plenitude e beleza: a liberdade do vôo exige a coragem de amar.
Dança enquanto jornada existencial: A coragem de Ser
A ação criadora investida na Primeira Jornada é conhecer o espaço vital. Partimos da noção de kinesfera, definida por Rudolf Laban (1879-1958) como a esfera do movimento ao redor do corpo É a esfera pessoal de movimento da qual nunca saímos, está sempre conosco, como uma carcaça. A kinesfera externa tem relação com a pele A interna tem relação com o esqueleto. A kinesfera média tem relação com os músculos. É gestual e formal. William Forsythe, propõe a noção de múltiplas kinesferas em diferentes partes do corpo, correspondendo a novos e diferentes centros do corpo (Rengel, 2000). O solo do casulo propõe as participantes dançar numa esfera escura. Buscar em seu corpo os registros, os traços gestuais, os fios existenciais e tecer com movimentos interligados, formando um bela trama, um aconchegante casulo. Um lugar que irá acolher, proteger, abrigar e transformar. Recomenda-se atentar para os fios, notar se são coloridos ou transparentes, sentir a textura e a espessura de cada fio. Tecer e dançar ao redor de si mesma.
Na Segunda Jornada a proposta está em reconhecer e vivenciar o movimento filogenético e ontogenético, ou seja, voltar ao começo. Nosso corpo se move como nossa mente se move. O desenvolvimento do movimento é trabalhado por Cohen (1997:4) tanto em termos filogenéticos como ontogenéticos. O desenvolvimento, explicita a autora, não é um processo linear, mas ocorre através de ondas sobrepostas, com estágios, contendo elementos de todos os outros. Em virtude de cada estágio estabelecer e apoiar o seu sucessivo, qualquer salto, interrupção ou falha para completar o estágio de desenvolvimento pode alterar o movimento e alinhamento na percepção, seqüência, organização, memória e criatividade. O desenvolvimento material inclui, além dos reflexos positivos, reações ajustadas e equilibradas, o padrão neurológico básico que é pautado por padrões de movimentos pré-vertebrados e vertebrados. O primeiro dos quatro padrões pré-vertebrados é a respiração celular, seguida da irradiação umbilical para a boca e do movimento pré-espinhal. Os doze padrões de movimentos vertebrados são baseados nos movimentos espinhal, homólogo, homolateral e contralateral. O sistema esquelético, formado por ossos e juntas, oferece ao nosso corpo a forma básica através da qual podemos nos locomover no espaço. Por esse meio, a mente também se organiza, promovendo suporte para nossos pensamentos.
“Entrei no casulo – e é lindo – porque de fato, sinto-me cuidando deste nascimento-existencial: quando teço o meu casulo, quando imprimo cores e texturas diferentes, quando me aproximo deste local que cuida de mim enquanto me transformo. Não quero ter pressa, aliás, quero sair dessa lógica de que estou sempre atrasada, quero perceber, sentir e viver o movimento com suas matizes e melodias quero o encontro que me leve ao reencontro comigo – quero me tornar uma pessoa melhor...” (“Aquela que Escuta” – participante)
O tema da Terceira Jornada diz respeito aos sentidos do corpo: sentidos, sentimentos e ação - percebo, sinto e ajo. O meticuloso exame que Cohen (1997) aplica a nossa percepção mostra que é através de nossos sentidos que recebemos informações de nosso ambiente interno (nós mesmos) e do nosso ambiente externo (os outros e o mundo). Aprendizagem é o processo pelo qual variamos nossa resposta para essa informação baseado no contexto de cada situação. O toque e o movimento são os primeiros sentidos a se desenvolverem. Eles estabelecem a linha de base para a futura percepção através do olfato, paladar, audição e visão. A boca é a primeira extremidade para segurar, soltar, medir, alcançar e retirar. Ela marca a fundação para os movimentos de outras extremidades (mãos, pés e cauda) e se desenvolve em relação aproximada com o nariz. O movimento da cabeça é iniciado pela boca e pelo nariz, os movimentos abaixo da cabeça são iniciados pelos ouvidos e olhos. O tônus auditivo e o tônus postural - a vibração e o movimento - são registrado pelo ouvido e são intimamente relacionados. A visão é dependente de vários sentidos, e por sua vez ajuda a integrar, formando padrões mais complexos. A percepção pode ser explorada em termos de inter-relação de diferentes sentidos e sua relação com o processo de desenvolvimento. Através da exploração do processo perceptivol, nós podemos expandir nossas escolhas em respostas a nós mesmos, aos outros e ao mundo no qual vivemos (COHEN, 1997, p. 6 e 7).
O contato com o mundo interior é a tarefa da Quarta Jornada. O contexto do movimento autêntico (ADLER, 2002) ensina que a descrição de uma experiência é distinta de uma fala sobre a experiência. Essa disciplina se dá em duas fases, relatadas a seguir:
Fase A: Solicito que a dançarina escolha um espaço na sala. Feche os olhos com a finalidade de expandir sua experiência de ouvir os níveis mais profundos de sua realidade sinestésica. Sua tarefa é responder a uma sensação, um impulso interior, uma energia vinda do inconsciente pessoal ou do inconsciente coletivo. A resposta para essa energia cria movimento que pode ser visível ou invisível para o observador. À medida que o trabalho se aprofunda, o movimento se torna mais organizado em padrões específicos, em partes específicas do corpo, dentro de ritmo e formas espaciais. Assim como a função da personalidade: mais emocional do que intuitiva, mais sensitiva que pensativa. Após cinco minutos, a experiência será concluída, chamarei seu nome e solicitarei que abra os seus olhos. Nós faremos um contato visual e a participante volta para o colchonete.
Fase B: Após se mover a participante pode: a) não falar e podemos ficar sentadas em silêncio; b) pode falar de sua chegada aqui e agora, qual foi o caminho percorrido de sua experiência original ao movimento; c) pode escolher encontrar palavras que são nascidas momento por momento, do próprio movimento. Se tentar esse caminho, recomendo que feche os olhos novamente; ao começar a descobrir palavras, que escolha algumas, presentes entre outras, tal como foram descobertas, ou pertencentes ao movimento quando estavam trabalhando no espaço. Mantendo o foco no interior e sentada em seu colchonete, solicito que fale com o verbo no tempo presente. O presente relembra-nos, prende-nos e encoraja-nos a permanecer no corpo, encarnadas, experiência em movimento, guiando-a até essa se tornar palavra. Tente lembrar o que o seu corpo está fazendo enquanto estava se movendo, e talvez a seqüência de movimento. Depois que falar, o observador lhe dirá, como testemunha, o que viu o seu corpo fazendo, incluindo a seqüência do seu movimento. Juntos articulam um mapa com nomes, lugares do corpo se movimentando no tempo e no espaço. Esse mapa é solo, a terra, o terreno essencial pelo qual as nossas experiências se tornam conhecidas.
“Ao descrever o movimento, “Brisa do Mar” diz: “Eu sinto os joelhos, flexiono os joelhos. Sinto os dedos dos pés. Mexo os quadris. Massageio a bunda, articulo as escápulas. Sacudo as escápulas. Flexiono e relaxo. Eu me abaixo. Sinto o meu corpo no chão. Eu me estendo e me encolho. Eu sinto o contato da perna ... suporte. Apóio os olhos (faz o gesto das mãos fechadas e punho apoiando os olhos) Sinto o cabelo (expressa movimentando os cabelos) Sinto coceira no cabelo. Toda... Aí eu torço para um lado, pro outro, flexionando os joelhos. Sinto a boca, começo a babar. Faço careta. Gosto de fazer careta. Acompanho com o quadril. Faço um som, movimento para frente, respiro, inspiro. Me abraço, me elevo. Desabraço. Final. Vai abrindo o corpo.” Comentários: pergunto como foi descrever o movimento no tempo presente. Responde: maior conexão entre mente e corpo. É como repetir abstratamente. Falo que notei que enquanto ela descrevia o próprio movimento ela fechava os olhos e por várias vezes repetia o movimento juntamente com a fala. Ela diz que ao fazer isso sentia mais a fluência do movimento, sentia-se guiada, sentia o movimento, a sensação.”
Na Quinta Jornada a ação criadora está em solicitar à dançarina que, em uma diagonal, vivencie a sua existência, do nascimento a sua morte. Nesse processo examina-se o tempo vivido como expressão e revelação criativa. Nesse momento ocorre uma profunda desconstrução e uma busca de sentido existencial. “Zum”, após realizar sua diagonal, comenta que vivenciou sentimentos de solidão, isolamento, sentiu que vivia como se a vida fosse uma tarefa. “Zum” chora. Comento que a vida é um dom. Na fenomenologia de Paul Tillich, a “coragem como um ato humano, como matéria de avaliação, é um conceito ético. Coragem como auto-afirmação do ser de alguém é um conceito ontológico. A coragem do ser é o ato ético no qual o homem afirma seu próprio ser a despeito daqueles elementos de sua existência que entram em conflito com sua auto-afirmação essencial.” (1976:3).
Dançar a vida: a coragem de criar
A coragem é necessária para que a mulher possa ser e vir a ser. Para que o eu seja é preciso afirmá-lo e comprometer-se. Essa é a diferença entre os seres humanos e os seres da natureza. O psicanalista Rollo May, ao comentar a perspectiva ontológica da coragem em Paul Tillich, exemplifica que o filhote transforma-se em gato por instinto. Nessa criatura, natureza e ser são idênticos. Mas um homem ou uma mulher torna-se humano por vontade própria e por seu compromisso com essa escolha. Os seres humanos conseguem valor e dignidade pelas múltiplas decisões que tomam diariamente. Essas decisões exigem coragem. Contudo, um tipo de coragem que não se expresse em desmandos de violência e que não dependa de afirmar o poder egocêntrico sobre as outras pessoas, “mas uma nova forma de coragem corporal: o uso do corpo, não para o desenvolvimento exagerado de músculos, mas para o cultivo da sensibilidade”, sugere May (1982). Nas Sexta Jornada a participante é convidada a elaborar a própria existência ao recriar a diagonal da vida. Busca-se, nessa etapa, criar o movimento da memória para o gesto, de uma experiência de vida específica para a imagem de um movimento formal: coreografar a história de vida (Albright, 1997). Ao comentar esta jornada, “Zum” sentiu gratidão e leveza ao invés de perceber a vida como uma tarefa árdua. Despertou...
Conhecer o corpo vivido, vivenciar o corpo emocional, reconhecer as próprias expressões são os desafios da Sétima Jornada. Proposta a partir do Rasaboxes, um treinamento psicofísico e um instrumento de composição para a performance criado por Richard Schechner e desenvolvida por Michele Minnick (2003), que combina teorias clássicas indianas de emoção e interpretação, pesquisas contemporâneas da psicologia, neurociência e o princípio do teórico francês Antonin Artaud, que propõe que atores sejam “atletas da emoção”. Rasa, que em Sânscrito significa “sabor”, no contexto da performance se refere a oito emoções básicas, suas combinações e como as mesmas são saboreadas pelo público. As boxes (caixas) são quadrados desenhados por linhas no chão, e cada caixa contém uma Rasa. Através de improvisações estruturadas, o Rasaboxes oferece ao jogador a possibilidade de pesquisar suas próprias expressões corporais a partir das Rasas básicas, desenvolver sua habilidade de passar de uma Rasa para outra instantaneamente e de combiná-las de forma a criar estados emocionais bastante complexos.
A dança como revelação: a coragem de amar
As experiências da Oitava Jornada se dão a partir da vinculação da dança com o Sagrado ou seja, primeiramente conceber o corpo como templo, em segundo lugar vivenciar a dança sagrada. Em terceiro lugar, dançar para transformar a existência. Essas vivências levam para a Nona Jornada, quando a dançarina é convidada a percorrer o caminho sagrado - bem descrito- na canção popular: “Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo.” Após caminhar no espaço sagrado; meditar. Perceber assim a nossa kinesfera como nosso espaço sagrado. Isso é permitir que o nosso feminino aflore, tornando-nos mais receptivas e mais aptas a magnetizar e a receber, em estado silencioso (SAMS, 2000). Discernir com o auxílio de nossos sentidos qual é a nossa verdade pessoal. E assim, criar a própria dança, que não se trata apenas de uma expressão do ser e sim uma revelação do ser. Na Décima Jornada, ao narrar e dançar sua história, a dançarina celebra a existência. Atenta-se para o belo presente no feminino e no sagrado. Dançar a vida como experiência estética - a vida como obra de arte. Essa jornada que leva ao centro de si é uma jornada que nos leva ao encontro do Outro e isso exige um novo tipo de coragem: a de amar e ser amada.
Referências Bibliográficas
ADLER, Janet. Offering from the conscious body: the discipline of Authentic Movement. Rochester: Inner Traditions. 2003
ALBRIGHT, Ann Cooper. Choreographing difference: the body and identity in contemporary dance. New England: Wesleyan. 1997
COHEN, Bonnie Bainbridge. Sensing, Feeling and Action: the experiential anatomy of body-mind centering. Northampton: Contact. 1997.
FREIRE, Ida Mara. Interrogação e Intuição: corpo, diferença e arte na formação de professores. Projeto de Pesquisa. Florianópolis SC: UFSC/ CED. 2006.
LABAN, Rudolf. Danza Educativa moderna. Buenos Aires: Paidós. 1984.
MAY, Rollo. A coragem de criar. Trad. Aulyde Rodrigues. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1982.
MINNICK, Michele Sheen. A dramaturgy of the flesh. Women e Performance, Issue 26, 13:2. 2003.
RENGEL, Lenira. Dicionário Laban. São Paulo: Annablume, 2003.
SAMS, Jamie. As cartas do caminho sagrado. Trad. Fábio Fernandes. Rio de Janeiro: Rocco. 2000.
TILLICH, Paul. A coragem de ser. Trad. Eglê Malheiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1976.
Novos Corpos em Cena
Novos corpos em cena: ensaio sobre a postura do espectador
Ida Mara Freire
Professora do Centro de Ciências da Educação
Universidade Federal de Santa Catarina
Novos corpos em cena: um ensaio sobre a postura do espectador
RESUMO
Artistas contemporâneos estão propondo um novo papel para o espectador. A proposição não se materializa somente no que diz respeito ao corpo do artista, como também, em relação aos corpos da platéia. Identifica-se o surgimento de insólitas confrontações no contexto das artes. No presente ensaio, descrevo, primeiramente, algumas experiências estéticas, pelo modo que se apresentam, desafiam a atitude passiva do observador. No segundo momento, problematizo a perspectiva de tratar o diferente como não-belo. Finalmente, discuto o olhar do espectador na esfera da pluralidade humana, refletindo sobre uma estética da existência, na perspectiva arendtiana, ou seja, a vida como processo criativo.
Palavras chaves: corpo, diferença, arte, política.
New bodies in scene: an essay on the spectator's posture
Abstract
Contemporary artists are proposing a new paper for the spectator. The proposition is not only materialized in what he/she says respect to the artist's body, as well as, in relation to the bodies of the audience. He/she identifies the appearance of unusual confrontations in the context of the arts. In the present rehearsal, I describe, firstly, some aesthetic experiences, for the way that you/they come, challenge the observer's passive attitude. In the second moment, questioning the perspective of treating the different as no-beautiful. Finally, I discuss the spectator's glance in the sphere of the human plurality, contemplating on an aesthetics of the existence, in the Arendt perspective, or be, the life as creative process.
Key words: body, difference, art, politics.
O que é a estética da Existenz? Como seria a postura do espectador diante dela? Posso parecer ousada ao apresentar nesse ensaio essa primeira pergunta, principalmente, porque não tenho ainda uma resposta definitiva para ela. Mas, tenho sim, vivenciado várias experiências que me possibilita descrever tanto o papel do dançarino como o de espectador.
Sendo assim, confesso que não foi sem emoção que me deparei com o Friso Beethoven, localizado no subterrâneo do palácio da Secessão, em Viena. O Friso Beethoven, foi criado por Gustav Klimt como parte das obras expostas durante a 14a. Exposição dos membros da Secessão, realizada em 1902. O contexto era de decadência e efervescência política e cultural, Viena, dividida entre a modernidade e a tragédia, entre a realidade e a ilusão, criava em torno de si opiniões que transpareciam sua reputação de indiferença, mas que ao mesmo tempo se fazia notar a qualidade e sua diversidade cultural. Tornando assim um centro artístico, ou ainda um “Laboratório do Apocalipse”. Essa era atmosfera que propiciou a criação de uma associação de artista intitulada de Secessão, a qual Klimt foi escolhido para ser presidente. Interessada em respaldar as proposições dos novos artistas a Secessão objetivava, também, fundar uma instituição autônoma que os congregassem em forma de exibições e publicações e os apresentassem ao publico vienense como a vanguarda internacional da arte.
Na 14a. Exposição ocorrida em 1902, os membros dessa associação apresentaram a Viena, “um estilo diferente de evento”, planejada detalhadamente, essa exposição almejava encontrar um modo ideal de apresentar a versão dos artistas da arte moderna monumental, e ao mesmo tempo, enfatizar de modo especial o processo de criação do trabalho artístico – tentando assim “aprender juntos”; desejando a harmonia co-existente entre arquitetura, pintura e escultura. O prédio da Secessão era conhecido como o “templo da arte”, onde o melhor e o mais sublime que os seres humanos foram capazes de produzir.
Percorrendo com os olhos e buscando apreender cada detalhe do Friso, me sentia inundada pelas cores, formas e a força daquelas inquietantes figuras que traduziam com originalidade os três tempos da 9a. Sinfonia de Beethoven: Aspiração à Felicidade, Forças Inimigas, Alegria, nobre centelha divina e Este beijo ao mundo inteiro. Vale salientar a natureza controvertida do Friso pintando por Gustav Klimt , primeiro, por ser uma de suas obras mais ambiciosa, como também a menos conhecida, e talvez em conseqüência disso, a mais mal interpretada.
Revendo as minhas anotações sobre essa experiência, verifico que o Friso Beethoven poderia ser uma ilustração ideal às questões voltadas à filosofia da existência, ao feminino como política, e a relação do espectador diante da diferença. Primeiramente, pelo motivo da 14a. Exposição de a Secessão ser consagrada a Beethoven. Um segundo aspecto diz respeito ao tema do Friso se vincular ao anelo à felicidade. Soma-se também, à representação do feminino. E por último, a reação do público frente à obra.
O feminismo como política pode caracterizar a busca da compreensão sobre o nosso processo de vida. Compreensão, essa tão bem discutida por Hannah Arendt , para essa autora, trata-se de um processo complexo, ou seja,
uma atividade interminável, por meio da qual, em constante mudança e variação, aprendemos a lidar com nossa realidade, reconciliamo-nos com ela, isto é, tentamos nos sentir em casa no mundo. (...) A compreensão é interminável e, portanto, não pode produzir resultados finais; é a maneira especificamente humana de estar vivo, porque toda pessoa necessita reconciliar-se com o mundo em que nasceu como um estranho, e no qual permanecerá sempre um estranho, em sua inconfundível singularidade. A compreensão começa com o nascimento e termina com a morte.
Essa busca de compreensão nos remete a questão sobre o sentido da política e a nossa postura diante do mundo. A existência política está associada a um valor, uma finalidade para vida humana fundamentada na razão, na felicidade, na justiça e na liberdade. A palavra política, de origem grega: ta politika, vem de polis, a Cidade composta por cidadãos, livres e com direitos iguais perante a lei e de expor e discutir em público suas opiniões. Nesse contexto original da política se evidencia a pluralidade humana, em concordância com Arendt,
condição básica da ação e do discurso, tem o duplo aspecto de igualdade e diferença. Se não fossem iguais, os homens seriam incapazes de compreender-se entre si e aos seus ancestrais, ou de fazer planos para o futuro e prever necessidades das gerações vindouras. Se não fossem diferentes, se cada ser humano não diferisse de todos os que existiram, existem ou virão a existir, os homens não precisariam do discurso ou da ação para se fazerem entender.”
Em suma, a compreensão como ação política, contribui para nossa capacidade de se distinguir, tornar-se singular na pluralidade humana. Fazemos isso com palavras e atos, criamos algo novo e conseqüentemente nascemos outra vez.
Essa experiência de criação, distinção e luta pela vida, que motivou os artistas membros da Secessão a propor uma exibição consagrada a Beethoven, também se traduzia numa aposta na arte fazer da felicidade uma realidade entre os homens e, ainda ser capaz de assegurar a regeneração do mundo. Mas se isso foi o almejado pelos secessionistas em 1902, até que ponto a contemporaneidade se vincula a esse projeto de cunho vanguardista? Em primeiro lugar, o que se vislumbra dessa experiência é uma idéia germinal de estética da Existenz. Ao escolher Ludwig van Beethoven como mártir, redentor da humanidade, Klimt e seus amigos, vê nele a corporificação do gênio e na sua obra exaltação do amor e do sacrifício capazes de salvar o homem. Tal atitude não só revela a veneração por esse artista, assim como uma busca de solução para as questões que Klimt, já fazia sobre o sentido da existência humana.
Outro aspecto que merece nossa atenção trata da reação do público. Muito embora, a 14a. Exposição da Secessão consagrada à Beethoven tenha sido um grande sucesso, durante três meses foi visitada aproximadamente por 60 mil pessoas, o Friso pintado por Klimt, foi visto como desafiante pelo público e a imprensa. Os quais avaliaram o friso como anêmico e rígido, além de considerarem os personagens repugnantes e indecentes. O vínculo entre friso Beethoven e os artistas contemporâneos está no olhar do espectador sobre o corpo. O corpo singular, seja apresentado como um mártir, tal como foi Beethoven, e representado nas pinturas de Klimt, ou como ator/dançarino como vemos hoje, continua celebrando a diversidade humana e desafiando o público.
O corpo diferente está em cena: nas telas do cinema, nos palcos de dança, nos teatros, museus e galerias de arte. Artistas, muitas vezes apresentados por ou para nós como pessoas com necessidades especiais, buscam a compreensão através da arte, tentam reconciliar com a realidade que insiste em negar-lhes o direito de uma vida digna. Suas ações criativas os inserem no mundo concebendo um segundo nascimento, original e singular.
Mas aos olhos do espectador a diferença ainda pode parecer repugnante e indecente. Vejamos, como argumenta Arendt “nada e ninguém existe neste mundo cujo próprio ser não pressuponha um espectador,” Por conseguinte, explica a autora: o fato de que as aparências sempre exigem espectadores e, por isso, sempre implicam um reconhecimento e uma admissão pelo menos potenciais, tem conseqüências de longo alcance para o que nós –seres que aparecem em um mundo de aparências – entendemos por realidade – tanto nossa quanto a do mundo.” A rejeição do público frente à diferença pode ser interpretada como um não reconhecimento, uma negação à realidade, apresentada como pluralidade humana.
Decerto que na tradição do pensamento filosófico ocidental, no vocabulário grego a palavra “conhecer” é derivada da palavra “ver”, ou seja, primeiro você vê e depois você conhece. Também se é possível, identificar que o termo filosófico “teoria” deriva da palavra grega que designa espectadores, theatai; ou teórico, o qual séculos atrás, significava “contemplando”, ou seja observar do exterior. Pode se identificar a distinção entre agir e compreender. O espectador pode compreender o espetáculo, em virtude de sua posição externa, que lhe permite ver a cena toda. O termo “filosofar,” o verbo e não o substantivo, é apresentado pela primeira vez quando Sólon, após ter promulgado as leis de Atenas, partiu em viagem durante dez anos, tanto por razões políticas como também para ver o mundo – theorein. Ao chegar em Sárdia, Creso lhe perguntou: “Estrangeiro, as notícias sobre sua sabedoria e suas andanças chegaram até nós, dizendo que você percorreu muitos países da Terra filosofando sobre os espetáculos que viu.”
Na tradição romana, se verifica a perda dessa relevância filosófica do espectador. Como indica Arendt
os espectadores romanos não estavam mais situados nas últimas filas de um teatro de onde eles, como deuses, poderiam olhar, lá embaixo, o jogo do mundo. Agora o seu lugar era a costa, ou o porto seguro de onde poderiam observar, sem correr riscos, a agitação selvagem e imprevisível do mar varrido pela tempestade.
O que se perdeu, além do privilégio do espectador de julgar e do contraste de pensar e fazer, foi a percepção imbuída no fenômeno que toda aparência demanda espectador. Essa é a postura do espectador, que Idade Moderna herdou e que parece ainda hoje guiar as atitudes frente à diferença - uma distância “nobre” e vantajosa.
No entanto, a ação criadora é revolucionária. Tal como venho sugerindo tendo aqui alicerçados meus argumentos na experiência de Klimt e na perspectiva fenomenológica de Hannah Arendt. A dança contemporânea, por exemplo, tem proposto um novo papel para o espectador. Esse é convidado, de surpresa a tomar parte nos espetáculos. Outras vezes, vai assistir os espetáculos, que em vez de lhe proporcionar entretenimento, o faz pensar sobre si próprio e os outros. Retomando a nossa questão inicial: O que é a estética da Existenz? Verifico que a arte contemporânea tem buscado essa resposta, tal como Klimt e seus amigos buscaram ao propor a exposição dedicada a Beethoven. O espectador é provocado a ver para conhecer. Entrar em contato com o mundo, como fez Sólon para daí filosofar sobre o que viu. Lembrar que a pluralidade é a lei da terra. Convenhamos, se “o Ser do homem é caracterizado como Ser-no-mundo, e o que está em questão para esse Ser no mundo é, finalmente, nada mais do que manter-se no mundo. Precisamente isto não lhe é dado; assim, o caráter fundamental do Ser-no-mundo é a ansiedade no duplo sentido de desabrigo e medo.” A distância “nobre” do espectador se constitui num obstáculo para que ele se reconcilie com a realidade e possa sentir em casa no mundo. A Existenz, não está vinculada a nenhuma forma do Ser, para Jasper é uma forma da liberdade humana. Ou melhor, “o homem é em sua realidade humana uma possível Existenz”. Assim, a palavra “Existenz” tem o sentido de que apenas quando o Homem se move em liberdade que repousa sobre sua própria espontaneidade e está “voltado em comunicação para a liberdade dos outros” é que há Realidade para ele.” Nesse sentido, o que arte nos oferece é a liberdade de expressão, nossas palavras e nossos atos criam a nosso existir no mundo, de modo que podemos compreender o nosso processo de vida, vivendo como seres distintos e singulares entre iguais. Essa conclusão esboça primeiramente, uma possível resposta a questão - o que é a estética da Existenz? E conseqüentemente, apresenta mais elementos que nos assegure uma postura inovadora do espectador frente à diferença. Espero assim que tal experiência seja uma vertente terna e firme de um feminismo que tenha a busca de compreensão como política e a arte se mantenha como um hino à alegria e este beijo ao mundo inteiro.
Bibliografia
ARENDT, Hannah. “A vida do espírito”. Rio de Janeiro, Relume- Dumará, 1991
ARENDT, Hannah. “O que é filosofia da Existenz? In: ARENDT, Hannah. A dignidade da política: ensaios e conferências. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1993. p.15-37.
ARENDT, Hannah. “Compreensão e Política”.In: ARENDT, Hannah. A dignidade da política: ensaios e conferências. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1993. p.39-53.
ARENDT, Hannah. “A condição humana”. Rio de Janeiro, Forense Universitária. 1995.
BISANZ-PAKKEN, Marian. “The Beethoven frieze by Gustav Klimt and the Vienna Secession”, In: HOLAUS, Bärbel, Secession. Wien: 1997. p.20-28.
CHAUÍ, Marilena. “Convite à Filosofia”. São Paulo, Editora Ática. 1995.
FERREIRA, Aurélio B. H. “Novo dicionário da língua portuguesa. 2a. Rio de Janeiro, Nova Fronteira. 1986.
LOUIS, Eleanora. “To the age its art, to art its freedom In: HOLAUS, Bärbel, Secession. Wien: 1997. p.6-19.
NÉRET, Gilles. “Gustav Klimt”. Köln, Benedikt Taschen, 1994
Ida Mara Freire
Professora do Centro de Ciências da Educação
Universidade Federal de Santa Catarina
Novos corpos em cena: um ensaio sobre a postura do espectador
RESUMO
Artistas contemporâneos estão propondo um novo papel para o espectador. A proposição não se materializa somente no que diz respeito ao corpo do artista, como também, em relação aos corpos da platéia. Identifica-se o surgimento de insólitas confrontações no contexto das artes. No presente ensaio, descrevo, primeiramente, algumas experiências estéticas, pelo modo que se apresentam, desafiam a atitude passiva do observador. No segundo momento, problematizo a perspectiva de tratar o diferente como não-belo. Finalmente, discuto o olhar do espectador na esfera da pluralidade humana, refletindo sobre uma estética da existência, na perspectiva arendtiana, ou seja, a vida como processo criativo.
Palavras chaves: corpo, diferença, arte, política.
New bodies in scene: an essay on the spectator's posture
Abstract
Contemporary artists are proposing a new paper for the spectator. The proposition is not only materialized in what he/she says respect to the artist's body, as well as, in relation to the bodies of the audience. He/she identifies the appearance of unusual confrontations in the context of the arts. In the present rehearsal, I describe, firstly, some aesthetic experiences, for the way that you/they come, challenge the observer's passive attitude. In the second moment, questioning the perspective of treating the different as no-beautiful. Finally, I discuss the spectator's glance in the sphere of the human plurality, contemplating on an aesthetics of the existence, in the Arendt perspective, or be, the life as creative process.
Key words: body, difference, art, politics.
O que é a estética da Existenz? Como seria a postura do espectador diante dela? Posso parecer ousada ao apresentar nesse ensaio essa primeira pergunta, principalmente, porque não tenho ainda uma resposta definitiva para ela. Mas, tenho sim, vivenciado várias experiências que me possibilita descrever tanto o papel do dançarino como o de espectador.
Sendo assim, confesso que não foi sem emoção que me deparei com o Friso Beethoven, localizado no subterrâneo do palácio da Secessão, em Viena. O Friso Beethoven, foi criado por Gustav Klimt como parte das obras expostas durante a 14a. Exposição dos membros da Secessão, realizada em 1902. O contexto era de decadência e efervescência política e cultural, Viena, dividida entre a modernidade e a tragédia, entre a realidade e a ilusão, criava em torno de si opiniões que transpareciam sua reputação de indiferença, mas que ao mesmo tempo se fazia notar a qualidade e sua diversidade cultural. Tornando assim um centro artístico, ou ainda um “Laboratório do Apocalipse”. Essa era atmosfera que propiciou a criação de uma associação de artista intitulada de Secessão, a qual Klimt foi escolhido para ser presidente. Interessada em respaldar as proposições dos novos artistas a Secessão objetivava, também, fundar uma instituição autônoma que os congregassem em forma de exibições e publicações e os apresentassem ao publico vienense como a vanguarda internacional da arte.
Na 14a. Exposição ocorrida em 1902, os membros dessa associação apresentaram a Viena, “um estilo diferente de evento”, planejada detalhadamente, essa exposição almejava encontrar um modo ideal de apresentar a versão dos artistas da arte moderna monumental, e ao mesmo tempo, enfatizar de modo especial o processo de criação do trabalho artístico – tentando assim “aprender juntos”; desejando a harmonia co-existente entre arquitetura, pintura e escultura. O prédio da Secessão era conhecido como o “templo da arte”, onde o melhor e o mais sublime que os seres humanos foram capazes de produzir.
Percorrendo com os olhos e buscando apreender cada detalhe do Friso, me sentia inundada pelas cores, formas e a força daquelas inquietantes figuras que traduziam com originalidade os três tempos da 9a. Sinfonia de Beethoven: Aspiração à Felicidade, Forças Inimigas, Alegria, nobre centelha divina e Este beijo ao mundo inteiro. Vale salientar a natureza controvertida do Friso pintando por Gustav Klimt , primeiro, por ser uma de suas obras mais ambiciosa, como também a menos conhecida, e talvez em conseqüência disso, a mais mal interpretada.
Revendo as minhas anotações sobre essa experiência, verifico que o Friso Beethoven poderia ser uma ilustração ideal às questões voltadas à filosofia da existência, ao feminino como política, e a relação do espectador diante da diferença. Primeiramente, pelo motivo da 14a. Exposição de a Secessão ser consagrada a Beethoven. Um segundo aspecto diz respeito ao tema do Friso se vincular ao anelo à felicidade. Soma-se também, à representação do feminino. E por último, a reação do público frente à obra.
O feminismo como política pode caracterizar a busca da compreensão sobre o nosso processo de vida. Compreensão, essa tão bem discutida por Hannah Arendt , para essa autora, trata-se de um processo complexo, ou seja,
uma atividade interminável, por meio da qual, em constante mudança e variação, aprendemos a lidar com nossa realidade, reconciliamo-nos com ela, isto é, tentamos nos sentir em casa no mundo. (...) A compreensão é interminável e, portanto, não pode produzir resultados finais; é a maneira especificamente humana de estar vivo, porque toda pessoa necessita reconciliar-se com o mundo em que nasceu como um estranho, e no qual permanecerá sempre um estranho, em sua inconfundível singularidade. A compreensão começa com o nascimento e termina com a morte.
Essa busca de compreensão nos remete a questão sobre o sentido da política e a nossa postura diante do mundo. A existência política está associada a um valor, uma finalidade para vida humana fundamentada na razão, na felicidade, na justiça e na liberdade. A palavra política, de origem grega: ta politika, vem de polis, a Cidade composta por cidadãos, livres e com direitos iguais perante a lei e de expor e discutir em público suas opiniões. Nesse contexto original da política se evidencia a pluralidade humana, em concordância com Arendt,
condição básica da ação e do discurso, tem o duplo aspecto de igualdade e diferença. Se não fossem iguais, os homens seriam incapazes de compreender-se entre si e aos seus ancestrais, ou de fazer planos para o futuro e prever necessidades das gerações vindouras. Se não fossem diferentes, se cada ser humano não diferisse de todos os que existiram, existem ou virão a existir, os homens não precisariam do discurso ou da ação para se fazerem entender.”
Em suma, a compreensão como ação política, contribui para nossa capacidade de se distinguir, tornar-se singular na pluralidade humana. Fazemos isso com palavras e atos, criamos algo novo e conseqüentemente nascemos outra vez.
Essa experiência de criação, distinção e luta pela vida, que motivou os artistas membros da Secessão a propor uma exibição consagrada a Beethoven, também se traduzia numa aposta na arte fazer da felicidade uma realidade entre os homens e, ainda ser capaz de assegurar a regeneração do mundo. Mas se isso foi o almejado pelos secessionistas em 1902, até que ponto a contemporaneidade se vincula a esse projeto de cunho vanguardista? Em primeiro lugar, o que se vislumbra dessa experiência é uma idéia germinal de estética da Existenz. Ao escolher Ludwig van Beethoven como mártir, redentor da humanidade, Klimt e seus amigos, vê nele a corporificação do gênio e na sua obra exaltação do amor e do sacrifício capazes de salvar o homem. Tal atitude não só revela a veneração por esse artista, assim como uma busca de solução para as questões que Klimt, já fazia sobre o sentido da existência humana.
Outro aspecto que merece nossa atenção trata da reação do público. Muito embora, a 14a. Exposição da Secessão consagrada à Beethoven tenha sido um grande sucesso, durante três meses foi visitada aproximadamente por 60 mil pessoas, o Friso pintado por Klimt, foi visto como desafiante pelo público e a imprensa. Os quais avaliaram o friso como anêmico e rígido, além de considerarem os personagens repugnantes e indecentes. O vínculo entre friso Beethoven e os artistas contemporâneos está no olhar do espectador sobre o corpo. O corpo singular, seja apresentado como um mártir, tal como foi Beethoven, e representado nas pinturas de Klimt, ou como ator/dançarino como vemos hoje, continua celebrando a diversidade humana e desafiando o público.
O corpo diferente está em cena: nas telas do cinema, nos palcos de dança, nos teatros, museus e galerias de arte. Artistas, muitas vezes apresentados por ou para nós como pessoas com necessidades especiais, buscam a compreensão através da arte, tentam reconciliar com a realidade que insiste em negar-lhes o direito de uma vida digna. Suas ações criativas os inserem no mundo concebendo um segundo nascimento, original e singular.
Mas aos olhos do espectador a diferença ainda pode parecer repugnante e indecente. Vejamos, como argumenta Arendt “nada e ninguém existe neste mundo cujo próprio ser não pressuponha um espectador,” Por conseguinte, explica a autora: o fato de que as aparências sempre exigem espectadores e, por isso, sempre implicam um reconhecimento e uma admissão pelo menos potenciais, tem conseqüências de longo alcance para o que nós –seres que aparecem em um mundo de aparências – entendemos por realidade – tanto nossa quanto a do mundo.” A rejeição do público frente à diferença pode ser interpretada como um não reconhecimento, uma negação à realidade, apresentada como pluralidade humana.
Decerto que na tradição do pensamento filosófico ocidental, no vocabulário grego a palavra “conhecer” é derivada da palavra “ver”, ou seja, primeiro você vê e depois você conhece. Também se é possível, identificar que o termo filosófico “teoria” deriva da palavra grega que designa espectadores, theatai; ou teórico, o qual séculos atrás, significava “contemplando”, ou seja observar do exterior. Pode se identificar a distinção entre agir e compreender. O espectador pode compreender o espetáculo, em virtude de sua posição externa, que lhe permite ver a cena toda. O termo “filosofar,” o verbo e não o substantivo, é apresentado pela primeira vez quando Sólon, após ter promulgado as leis de Atenas, partiu em viagem durante dez anos, tanto por razões políticas como também para ver o mundo – theorein. Ao chegar em Sárdia, Creso lhe perguntou: “Estrangeiro, as notícias sobre sua sabedoria e suas andanças chegaram até nós, dizendo que você percorreu muitos países da Terra filosofando sobre os espetáculos que viu.”
Na tradição romana, se verifica a perda dessa relevância filosófica do espectador. Como indica Arendt
os espectadores romanos não estavam mais situados nas últimas filas de um teatro de onde eles, como deuses, poderiam olhar, lá embaixo, o jogo do mundo. Agora o seu lugar era a costa, ou o porto seguro de onde poderiam observar, sem correr riscos, a agitação selvagem e imprevisível do mar varrido pela tempestade.
O que se perdeu, além do privilégio do espectador de julgar e do contraste de pensar e fazer, foi a percepção imbuída no fenômeno que toda aparência demanda espectador. Essa é a postura do espectador, que Idade Moderna herdou e que parece ainda hoje guiar as atitudes frente à diferença - uma distância “nobre” e vantajosa.
No entanto, a ação criadora é revolucionária. Tal como venho sugerindo tendo aqui alicerçados meus argumentos na experiência de Klimt e na perspectiva fenomenológica de Hannah Arendt. A dança contemporânea, por exemplo, tem proposto um novo papel para o espectador. Esse é convidado, de surpresa a tomar parte nos espetáculos. Outras vezes, vai assistir os espetáculos, que em vez de lhe proporcionar entretenimento, o faz pensar sobre si próprio e os outros. Retomando a nossa questão inicial: O que é a estética da Existenz? Verifico que a arte contemporânea tem buscado essa resposta, tal como Klimt e seus amigos buscaram ao propor a exposição dedicada a Beethoven. O espectador é provocado a ver para conhecer. Entrar em contato com o mundo, como fez Sólon para daí filosofar sobre o que viu. Lembrar que a pluralidade é a lei da terra. Convenhamos, se “o Ser do homem é caracterizado como Ser-no-mundo, e o que está em questão para esse Ser no mundo é, finalmente, nada mais do que manter-se no mundo. Precisamente isto não lhe é dado; assim, o caráter fundamental do Ser-no-mundo é a ansiedade no duplo sentido de desabrigo e medo.” A distância “nobre” do espectador se constitui num obstáculo para que ele se reconcilie com a realidade e possa sentir em casa no mundo. A Existenz, não está vinculada a nenhuma forma do Ser, para Jasper é uma forma da liberdade humana. Ou melhor, “o homem é em sua realidade humana uma possível Existenz”. Assim, a palavra “Existenz” tem o sentido de que apenas quando o Homem se move em liberdade que repousa sobre sua própria espontaneidade e está “voltado em comunicação para a liberdade dos outros” é que há Realidade para ele.” Nesse sentido, o que arte nos oferece é a liberdade de expressão, nossas palavras e nossos atos criam a nosso existir no mundo, de modo que podemos compreender o nosso processo de vida, vivendo como seres distintos e singulares entre iguais. Essa conclusão esboça primeiramente, uma possível resposta a questão - o que é a estética da Existenz? E conseqüentemente, apresenta mais elementos que nos assegure uma postura inovadora do espectador frente à diferença. Espero assim que tal experiência seja uma vertente terna e firme de um feminismo que tenha a busca de compreensão como política e a arte se mantenha como um hino à alegria e este beijo ao mundo inteiro.
Bibliografia
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