sexta-feira, 3 de junho de 2011

Entrelaçamentos

Hoje pensei, onde está o perdão na dança? Onde está o ubuntu no discurso dos pensadores da dança? Bem, finalizo o curso isiXhosa para iniciantes. Uma das minhas metas é aprofundar mais o estudo dessa língua. Enquanto esperava a aula começar, troquei umas palavras com uma colega de classe. Ela foi criada numa comunidade colored, e fala afrikan. Ela perguntou se todos os brasileiros dançavam samba. Eu disse que não, do mesmo modo que nem todos os negros aqui falam Xhosa. Ficou literalmente animada ao saber que minha pesquisa era sobre o Toyi-Toyi. Na sua simples euforia falou: “Isso é divertido.” Acrescentei; “poderoso também”. Ela empolgada falou: “Eu posso dançar Toyi-Toyi para você.” Exatamente isso que me chama atenção: a popularidade dessa dança; que me parece passar desapercebida pelos estudiosos da dança por aqui.

Ontem foi um dia bem interessante, recebo oito horas da manhã uma MSN no celular, Ruth Levin, a pesquisadora que estamos fazendo o processo coreográfico em colaboração, ela diz que tem dois ticktes para o espetáculo de abertura Ouroboros da companhia de formas animadas Handspring Puppet Company. Perguntei para a pequena se ela gostaria de ir, mas não gostou da idéia de sairmos a noite e ter que pegar taxi (a van). Nossos hábitos foram alterados com a chegada do outono-inverno. Nossa trajetória é previamente traçada, nossos passos são mais rápidos e nosso olhar mais atento. O vento, o frio e a chuva compõem a paisagem e seguimos de taxi até a escola da pequena, depois vou a pé até a UCT e a na volta também.

Chego na minha sala, que agora tem um aquecedor que depois de reclamar do frio com os colegas, o professor de dança africana Maxwell levou um para minha sala e agora está bem melhor. Aqui não há calefação na maioria dos lugares, bem parecidos com nossos ambientes aí no Brasil. Para aquecer tomamos chá, sopas e saboreamos muitas barras de chocolates com nozes, que delícia!

Ruth aparece na porta e pergunta se vou querer ver o Ouroboros, telefono para vizinha Xhosa pergunto se ela pode ficar de babysitter da pequena, ela diz que sim. Falo com a amiga que me ofereceu convite para a Cantata Rewind e pergunto se ela gostaria de ir, ela disse que sim, combinamos dela me dar um carona de volta. E confirmo com Ruth que vou. Já aproveito para falar sobre o material que ela ficou de me passar sobre a TRC (Truth and Reconcilation Commision – Comissão Verdade e Reconciliação). Comento que terminei de ler o livro de Antjie Krog “Begging to be Black” e que começo elaborar as indagações para uma possível entrevista.

No período da tarde, encontro Tâmara, alta, cabelos loiros longos, egressa da School of Dance. Ela conta que perdeu um amigo, ontem foi o Memorial, uma experiência cultural bem diferente, o amigo era negro, vivia na township, comenta que as pessoas cantavam, dançavam celebraram a vida. Seu amigo morreu de meningite e também ficou sabendo que ele tinha AIDS. Curioso, minha vizinha Xhosa, comentou que as pessoas negras estão morrendo, que embora não haja uma guerra declarada, há uma guerra escondida, espiritual, psicológica, biológica. Ela diz que as pessoas negras estão vivendo na miséria, não há empregos, moram de 10 a12 pessoas num mesmo cômodo, as meninas engravidam e vivem todos de seguro social. Ela comenta que as pessoas vão para o hospital com uma doença e voltam infectadas com o vírus do HIV. Mas, voltando ao encontro com a Tâmara, sentamos para planejarmos uma aula de dança que ela me convidou para ministrar para uma turma de 24 crianças entre 9 a 12 anos de idade na escola para estudantes com surdez. Ela gostaria de ver como ensino dança. Interessante será essa experiência, pois será a primeira vez que ensino dança para um grupo tão grande de crianças. Ao terminar a conversa, comento que vou me preparar para o nosso último dia do Projeto Dance Vision e hoje cada membro do grupo iria apresentar sua dança, ela diz que está se sentindo ansiosa.

O projeto foi coordenado pelo Gerard e os workshops foram oferecidos por mim, foram quatro semanas, um grupo de 13 professoras fizeram o primeiro workshop, e cinco fizeram os quatro módulos. Foi bem intenso. E ao terminar ontem essa primeira etapa, que foi filmada e fotografada pelo professor Eduard responsável pelo arquivo e memória da dança aqui da School, todos pareceram satisfeitos e surpresos com o resultado.

Pego a pequena na escola, falo que ela vai ficar com sua amiguinha e que vou ao teatro, ela adorou e beijou minha mão várias vezes. Banhos, janta e lá vamos nós. O taxi demorou para passar, quando entro dou 3 moedas de 2 rands. O cobrador diz que é 7, peguei a nota de 20, ele pareceu demorar para me devolver as moedas e me dar o troco. Fiquei com a mão aberta esperando, e falei que ele deveria me devolver os 6 e o 13 de troco. O motorista queria saber o que estava acontecendo, nisso eu já estava chegando perto do local de descer. Eles trocaram umas palavras, até onde entendi, parecia dizer que eu não sabia que ele tinha freqüentado escola, finalmente, ele me deu o troco e eu desci, expressando Thank You!
Chego ao teatro, pego os convites, encontro minha amiga no bar, tomo um apletizer, é uma soda deliciosa. Um rapaz, negro, sorridente, aproxima de nós, leio seu nome no crachá dourado do teatro, ele pergunta qual peça que vamos assistir, fala que já estão abertas as portas, comenta sobre a companhia de teatro, e diz que viu um DVD do espetáculo que eles fizeram sobre os testemunhos da TRC, que é emocionante. Comento meu interesse em ver o DVD, ele diz que está biblioteca da School of Drama no Hiding Hall, agradeço pelas informações. Entramos assisto, atentamente o espetáculo belo sobre a teia de relações de dois personagens principais. No programa o diretor diz que trata-se de uma jornada que envolve confiança e relação com o todo. Há sombras, bonecos, imagens e uma sonoridade que dá vida. Creio que o trabalho deveria ser apresentado no FITA, seria uma boa oportunidade para o público brasileiro conhecer.

Bacana, continuamos com a sensação que estamos no lugar certo, na hora certa, encontrando as pessoas certas...

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