quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Entrelaçando Dança e Poesia: a escuta do outro


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CENTRO DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO


Seminário Especial: Experiência e Educação Estética –  África do Sul:  Arte e Política, Corpo e Alteridade.

Aluna: Danieli A. Pereira Marques – edf.danieli@gmail.com
Professora: Dra. Ida Mara Freire
Resenha Crítica – Obra artística Sul Africana:

Entrelaçando Dança e Poesia: a escuta do outro

Companhia de Dança: Moving into Dance Mophatong (MIDM) –  Joanesburgo
Obra coreográfica: Threads (obra que entrelaça dança e poesia)
Coreografia: Sylvia Magogo Glasser            Poesia e declamação: Lebo Mashile       
Duração: 55 minutos

Contextualizando a companhia:
A Companhia MIDM foi criada em 1978 por Sylvia Magogo, como um movimento social contra o apartheid, em um trabalho de integração das pessoas e das culturas ocidentais e africanas, dando origem ao estilo “afrofusion” que integra rituais, músicas e danças africanas com formas de dança contemporânea ocidental.  O repertório está enraizado em rituais africanos e outras formas de arte, narrativas passadas e presentes,  caracterizadas por belezas físicas e expressividade espiritual.

Poetisa Lebo Mashile:
Filha de exilados sul-africanos, nasceu nos EUA em 1979. Aos  16 anos ela e seus pais voltaram para seu país de origem.  Estudou direito e relações internacionais na Universidade de Wits em Joanesburgo. Refere-se ao seu trabalho como um poder expressivo, uma ferramenta eficaz para trazer mudanças de atitudes que são necessárias na sequência das transformações sócio-políticas no pós-apartheid da África do Sul. 

Sobre a obra:
Uma colaboração artística de Sylvia Magogo, reconhecida coreógrafa Sul Africana e Lebo Mashile, considerada um ícone da poesia moderna Sul Africana. A coreografia entrelaça dança, música e poesia, articulando e desarticulando sons, movimentos e palavras. A obra pode ser pensada como uma dança falada ou um poema corporal. O cenário é atravessado por fios e cordas, que correspondem ao título da obra. Em torno deles bailarinos tecem movimentos e relações inesperadas.  A presença no palco da poetisa, também enriquece as cenas, outro corpo em ação, em palavra-movimento.

Trata-se de um trabalho artístico que deixa em evidencia não só a presença, como também a experiência do outro nas relações existenciais, “há um espírito encarnado com o qual podemos entrar em contato” (Merleau-Ponty, 1990, p. 288).

Momentos que deixam em evidência que o problema do outro, é um espelho do problema do eu, e assim, do problema do mundo. A experiência do outro põe em evidência o que há de mais original na nossa relação com o ser (Merleau-Ponty, 1990).

 A poesia, entre outras coisas, trás palavras que significam as relações de gênero, o mundo vivido do “Ser”, ou vir a “Ser”: amor, ódio, incertezas, desejos... O sentido da poesia é recíproco à expressão poética (Merleau-Ponty, 1990), nesse caso, essa reciprocidade estende-se também à expressão poética corporal.

As tramas que envolvem as cordas e os entrelaçamentos dos movimentos podem demonstrar que estamos ligados por uma grande teia, corpos mostram-se como um nó de significações vivas, na grande teia das relações humanas.

Tecemos a existência num espaço intersubjetivo, nos diversos comportamentos, estamos envolvidos com o outro, estabelecemos entre nós, o outro e o mundo uma relação de diálogos e experiências.  Experiências essas que nos possibilitam o acesso ao outro, atravessadas por atitudes e relações hora harmoniosas, fluidas, hora desesperadoras e conflitantes. Em muitos momentos nos vemos presos em algumas situações que nos levam a repetição das ações/gestos, até que transcendemos e, dançando, vamos ao encontro de outras formas, outros caminhos, atravessados – por vezes – com dificuldades.

Os movimentos apreciados são expressões criadoras, um meio de ser, incorporar, tornar “viva” as relações humanas... Como sinaliza Merleau-Ponty (1990), um corpo fenomênico, está sempre em vias de se comportar, emoções que são provocadas por “situações”, totalidades que só tem sentido por uma vida.

A estética do silêncio na experiência dos diálogos também se faz presente. Há momentos em que Lebo direciona sua fala para um ritmo sutil, o tom da voz suave, cria uma relação de escuta com os corpos dos bailarinos, que sintonizados com a fala, demonstram deixar o silêncio guiar seus gestos, o silêncio torna-se um meio de ser expressão, algo que convida os bailarinos a preenchê-lo com seus movimentos. A escuta viabiliza o diálogo, entre a fala da poeta e as falas corporais. Na experiência dançante necessitamos da escuta do outro, não é apenas o meu tempo, ou o meu querer que prevalece, nas relações dançantes precisamos entrar em sintonia, deixar ser habitado pelo outro... nos tornamos um só, único e múltiplo. Silêncio e gesto não se opõem nessa forma de existir, estão fundados, sustentando e permitindo a aparição de novas possibilidades corporais.  De repente a relação silenciosa cessa... Agora o ritmo acelerado da fala, os gritos, a música com acentos crescentes, são acompanhados de expressões contagiadas por essas situações... E mais adiante novamente tudo acalma, depois da tempestade... gestos silenciosos... e bailarinos tornam-se inteiramente o espaço, o tempo e o silêncio, na ação, no gesto, na expressão criadora...
Como no ritmo da vida... Tudo está em relação e tudo se transforma... Nossas vidas são tecidas por muitos fios, uma verdadeira tapeçaria humana... Tecida por várias mãos, outros espíritos encarnados, com os quais travamos muitas e diversificadas relações...



Referências:

MERLEAU-PONTY, Maurice.  A experiência do Outro. In: Merleau-Ponty na Sorbonne: resumo de cursos psicossociologia e filosofia. Campinas SP: Papirus, 1990.

Moving into Dance Mophatong. Disponível em:  http://www.midance.co.za/index.html. Acesso em novembro de 2012.

 Biography Lebo Mashile.  Disponível em:
 http://badilishapoetry.com/artists-profile/178/. Acesso em novembro de 2012.


Coreografia Threads – com entrevista de Lebo Mashile. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=5N8RbgcI7-o&feature=related. Acesso em novembro de 2012.



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