segunda-feira, 23 de março de 2015

DANÇA E CEGUEIRA: a criação no lugar da falta


Resumo
A leitura do presente texto sugere uma fenomenologia da dança ao mostrar como o corpo ivido é o sentido através do qual compreendemos o que é ser humano. Com isso, apresento a cegueira como experiência perceptiva. Proponho as Jornadas, um processo criativo para apreciação da dança, fundamentadas em uma experiência intuitiva e estética. Descrevo a experiência de composição coreográfica de uma dançarina com cegueira congênita. Explicito, através da vivência das jornadas e da experiência com a cegueira, como o corpo, ao ser apreendido como casa da memória, revela-se como fluxo temporal. Finalizo tecendo considerações acerca da aprendizagem e da apreciação da dança na formação de professores.
Palavras-chave: dança, cegueira, fenomenologia, corpo, memória.

Artigo publicado na Revista Dança




Capa da revista

--
Revista Dança
http://www.portalseer.ufba.br/index.php/revistadanca
ou
www.revistadanca.ufba.br

terça-feira, 10 de março de 2015

Pesquisa em Dança

O Periódico - Research in dance Education - Publicou um edição especial  acerca da pesquisa em dança. Vale conferir - Destaco  o  artigo Embodied writing: choreographic composition as methodology de Jasmine B. Ulmer.  Há também  o My name is a Blackbird: release, tranparency, and agency de Molly Shanaham.
Aqui vai o link do Editorial: Angela Pickard, Anna Pakes & Doug Risner (2015) Editorial, Research in Dance Education, 16:1, 1-4
http://www.tandfonline.com/doi/pdf/10.1080/14647893.2015.973223
Caso tenham interesse em publicar escrevam, pois posso dar alguma informação acerca dos procedimentos,

http://www.tandfonline.com/doi/pdf/10.1080/14647893.2015.973223

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Plataforma Professoras Afrodescendentes Santa Catarina

Pessoal, peço que ajudem a compartilhar esta pesquisa para que possamos alcançar o maior numero possível de professoras negras no estado. O intuito é que a plataforma de visibilidade e sirva como ferramente de pesquisa sobre educação e protagonismo feminino negro.
https://www.facebook.com/outrasantonietas
http://outrasantonietas.wordpress.com/

sábado, 27 de setembro de 2014

Compassos da Memória

-->
Foto de Josiane Lira

Ida Mara Freire
Publicado no Jornal Notícias do Dia 26/09/2014
A 4ª Semana Flamenca de Florianópolis, coordenada por  Carol Ferrari,  ocorreu de 08 a 14 setembro, o público participou das aulas de cajón, guitarra, castanholas, mantón, baile,  ministradas por profissionais de outros estados e países. De certo modo, as atividades possibilitaram reconhecer a memória da arte flamenca manifesta em cada gesto bailado. Pois, no flamenco cantar e dançar um palo é uma forma de fazer história,  observa Selma Treviños, trata-se de uma ferramenta para animar o passado ou uma “escrita” acerca de algo que já foi feito. Contudo, o que foi esquecido, ao contrário de ser ausência de algo que não está mais lá, pode ser a presença esquecida de algo que já esteve ali. 

No sapateado da dança flamenca, por exemplo, o colocar-se e o deslocar-se são movimentos primordiais que fazem do lugar algo a ser buscado em cada compás bailado.  Faz lembrar a repetição como a  energia que torna o baile possível.  Na busca de  interiorizar a canção, o cante, a palavra que se diz em voz baixa,  as bailoras  expressam a necessidade espiritual de comunicar tanto para si como para o outro, o modo de sentir a alegria e o sofrimento da vida  cotidiana. No palco,  elas deixam transparecer como os movimentos corporais são  feitos de fora para o interior, movimentos fechados, repetidos que, às vezes   confessam uma luta vã. Cada palo caracteriza-se em gestos diversos ora esguio feito torres ora em  torções que rebitam o corpo para o chão, como descreve Corinne Savy.

Na noite  de encerramento, no Espaço Sol da Terra, o espetáculo TABLAO inicia-se com as patadas de tangos,  ritmo  rico e versátil da Andaluzia, compasso quaternário bem marcado e o cante alegre e festeiro tecem  memórias que são ao mesmo tempo  íntimas e compartilhadas entre as bailaoras, o cantaor, o guitarrista e a plateia. A soleá, abreviatura cigana de soledad (solidão), interpretada por Chari Gonzalez,  conduz o espectador e a espectadora para um ambiente de relembrança intercorporal, fragmento de uma terra silenciosamente habitável.   Carol Ferrari baila alegrías, cante de festa, exteriorização de uma alegria em suas  trilhas e  obstáculos interiores. Na guitarra Jony Gonçalves e o cantor Ozir Padilha apresentam  fandangos, caracterizados por movimentos vivos e agitados. A siguiriya, bailada por Ana Paula Campoy,  de natureza profundamente emotiva, faz a plateia sentir  momentaneamente a desesperança e a crueldade do mundo.  Yara Castro baila uma soleá por bulería, ritmo com tonalidade mestiça  que evidencia no corpo o caminho musical.  O espetáculo vai  se fechando com a vivacidade das populares sevillanas  e a festividade das patadas por bulería, nesse palo rápido, o elenco têm a oportunidade de expor  a intensa memória corporal, alicerçada na obstinada e paciente repetição, potência criadora que reabre no corpo  um espaço do passado para se viver no futuro.

O espetáculo TABLAO mostrou, para quem foi ver e ouvir, como na herança do flamenco descobre-se que  o nosso lugar no mundo é ali onde está o nosso corpo.  No final desse  compás  a plateia ritmicamente  agradecida exclamou: Olé!

Email: Ida.mara.freire@ufsc.br  (*) Professora Associada do Centro de Ciências da Educação da UFSC. Realizou pós-doutorado em dança na Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Solos de Silêncio

-->
Vestígios do Silêncio
Ida Mara Freire

Existe muita coisa dentro do silêncio, descobrem Camila Miranda e Meline Costa, intérpretes criadoras do espetáculo Solos de Silêncio, apresentado  dia 05 de setembro na Casa das Máquinas , contemplado com o Prêmio Elisabete Anderle.
 
Foto de August Murad
Em cena as mãos das dançarinas tateiam a terra. A menina espectadora analisa a composição do solo ali exposto: seria argila, areia, silte... Solo. 1. Superfície sólida da crosta terrestre onde pisamos e construímos; 2. Bailado executado por um só dançarino; 3. Primeiro voo que o aluno de pilotagem faz sozinho, desacompanhado do instrutor. Escavo o solo silenciosamente a procura de palavras ainda vivas. 

Como escavar o movimento  criativo   e os modos de reconstrução do espaço para lidar com o conflito e a diferença numa dimensão dual? Ao colaborar com a pesquisa do espetáculo Diana Gilardenghi atualiza o papel do coreógrafo como aquele que  pergunta,  ouve atentamente e divide a responsabilidade com o outro. Esmera-se em atentar para o que não é dito, mas é dado  pela expressão facial, os gestos e a linguagem corporal, busca  com isso a inter-relação entre gestos e silêncio.

Mas os dois corpos, vestidos por Alice  Assal,  resistem ora calçados com suas botas ora com os pés livres na terra. Insistem e transbordam além das linhas e formas de um sistema complexo onde incessantemente vivem organizações, inércias, desorganizações e processos caóticos. Ao redor do tecido pendente do teto ao chão, tecem com o público a veracidade  das tramas que exacerbam o fato de que estamos a todo momento construindo e reconstruindo aquilo que somos e buscamos  ao ser e  ao estar com o outro.

O silêncio no corpo é contenção, afina assertivamente a  sonoridade de  Jorge Linemburg. É assumir a cadência de uma trilha interior. A música  anuncia um outro destino. Pausa, para mover-se para outra direção. Uma  dança que  vem do chão, iluminada rasteiramente por Marcello Serra, luminosidade que rastreia  o tropeço e demarca o estilhaço de ser um em dois. No mover-se na horizontal,  acompanha-me  André  Lepecki, estudioso desse corpo que abraça  a horizontalidade só por um momento ou  para o resto da vida. Os Solos de silêncio desafiam a plateia a explorar a temporalidade  daquilo que se ganha  quando se perde verticalidade, e do que  se alcança quando se ganha horizontalidade. 

“Num campo de silêncio, onde pastam manhãs, estou pelo que sou” as palavras de   Thiago de Mello revelam os vestígios desse espetáculo que corrompe as estruturas inertes com uma obstinada sensibilidade, convidando o leitor e a leitora enraizarem a coexistência no solo do coração.

Email:  ida.mara.freire@ufsc.br
(*) Professora Associada do Centro de Ciências da Educação da UFSC, pós-doutorado em dança Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Viajar e Dançar

-->
Viajar e  Dançar
Ida Mara Freire
Texto Publicado no Jornal Notícias do Dia, em 07/08/2014. Caderno Plural p. 4



Abertura da WDA, Angers, França, 2014

 A distância é parte da comunicação e o papel  e os deveres do espectador não podem ser equiparados com a passividade, sugere o filósofo Jacques Rancière; pois, em sua atitude perceptiva o espectador, observa, seleciona, compara e interpreta.  E então pergunto como podemos desenvolver novos públicos para a dança? Arrisco uma resposta: deslocando-se no espaço,  dançando ou viajando.   
  
Recentemente retornei   da viagem de estudos na qual  participei, com o apoio da Capes, do evento global da World Dance Alliance [Aliança  Mundial da Dança]  ocorrido de 6-11 de julho em  Angers, França.  Coordenado pela australiana Cheryl  Stock, a WDA ofereceu no Centro Nacional de Dança de Angers e na Universidade de Angers  uma plataforma  para troca de pesquisa acadêmica e trabalho artístico,  nutrindo oportunidades de desenvolvimento na área da dança para os profissionais dos 37 países participantes. Numa atmosfera de compartilhamento, um  sorriso ou um comentário da apresentação eram suficientes para  receber um cartão ou   e-mail com vídeo do trabalho apresentado. 

Em um mundo aterrorizado por amargas divisões  a WDA  sugere examinar o passado para trabalhar um futuro mais humano. Confrontando e desafiando a violência em todas as suas formas, incentiva  abraçarmos a diversidade cultural, buscarmos o conhecimento e a compreensão nos múltiplos pontos de vistas  que a arte pode oferecer.  Neste contexto apresentei  a vídeo dança  intitulada  Stone Water [Pedra e Água] como um ensaio de etnografia visual na qual saliento as texturas da sociedade sul-africana pós-apartheid a partir das imagens que evidenciam o tempo, as relações, o caminhar junto e as mãos dadas, presentes na infância, na percepção do outro e na experiência com a cegueira. Esses gestos que tocam o chão e o ser um do outro mostram que a superfície da pele e as pontas dos dedos são receptáculos de uma memória intercorporal. 
Abertura da WDA, Angers, França, 2014


Por isso, a WDA também interroga:  Como uma coreografia, em seu  renovado foco sobre o lugar da história, articula a relação entre passado, presente e futuro em uma realidade  globalizada? Uma resposta pode  ser a sua leitor ou leitora que lê  esse texto e aprecia a dança.  Em conversa com Jean Lee, pesquisadora da  Universidade de Londres  acerca da formação de plateia, escuto  sua descrição de como espectadores são mais ativos em sua interpretação da dança contemporânea do que  o contar histórias presentes no  balé clássico.  Obviamente,  em experimentos de dança contemporânea, o papel do público está em uma posição mais ativa. Produções de dança com imersão fornecem um ambiente que permite que os espectadores sejam integrados na cena, diluindo a distinção do espaço entre os dançarinos  e a plateia. Esse tipo de cenografia favorece  o público reagir aos movimentos dos bailarinos  com improvisação estruturada  ou frases coreografadas. Ocasionalmente, a plateia precisa dançar ou agir em conjunto com os dançarinos, tornando-se  às vezes coprodutora  ou testemunha da coreografia.  

Quem são e onde estão os novos públicos da dança? Parece-me que a resposta novamente envolve um deslocamento no espaço: o de sair da poltrona do conforto consigo mesmo e entrar  em  cena da arriscada  vida partilhada com o outro.

(*)Professora Associada do Centro de Ciências da Educação da UFSC,  Pós-doutorado em Dança pela Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul.




quarta-feira, 25 de junho de 2014

Dança: uma trama perceptiva


Dança: uma trama perceptiva

Texto publicado no Jornal Notícias do Dia em 26/06/2014
Foto de Yéssica Saavedra Seguel
A percepção do corpo no espaço  pode ser um lugar privilegiado para a leitora e o leitor entrelaçarem razão e sensibilidade.  Exemplo disso foi a estreia do espetáculo “Convite ao Olhar”. Na noite de 11 de junho, no Teatro Gov. Pedro Ivo, o elenco composto por Aroldo Gaspar Pereira Filho, Deivid Oliveira Velho, Fabiana Cristina de Souza, Gabriel Sanches Figueira, João Paulo Marques, Laís Bittencourt Fortes, Maura Marques, Ramon Noro e Roberta Nastari de Oliveira, dançam com elásticos amarrados em seus corpos e fixados em uma estrutura metálica vazada em forma de cubo. Os participantes da recém-criada Companhia de Dança Lápis de Seda, vinculada ao Baobah,  integram um projeto aprovado  na Lei  Rouanet,  que  além de receberem treinamento técnico em dança, interagem com artistas das áreas de música, design, artes plásticas e artes cênicas,  tendo como desdobramento uma pesquisa com o tema "transformação do indivíduo através da arte" a ser realizada pela coordenadora do  projeto, a psicóloga Jussara Figueira, e a atriz Marisa Naspolini.

A estrutura multifacetada, projetada por Ramon Noro, está localizada no centro da cena e possibilita a invenção de campos  intelectuais e sensoriais entre os dançarinos e  a plateia. No olhar da espectadora e dançarina Ana Flávia Piovezana dos Santos, interessada na amplitude  do espaço, chama a sua atenção o corpo a se movimentar entre os  contornos,  ângulos, distâncias e alturas do cubo 3X3 destacado pela iluminação diáfana de Marco Ribeiro.  A voz de uma espectadora mirim, durante o espetáculo, descreve o que ela percebe: os pés descalços dos dançarinos maleavelmente vestidos por Emmanuel Bohrer Junior;  a fumaça  cheirosa que as dançarinas sopram das mãos formando uma pequena nuvem diante das faces; e algumas vezes  seus gestos alegres acompanham com  cadência a trilha musical composta por Luiz Gustavo Zago.

Para Analu Ciscato o desafio da criação coreográfica não está na composição da dança para um corpo diferente, mas sim na busca de uma compreensão que respeite como pessoas diferentes entre si podem apreenderem um movimento específico a partir de pontos de vistas  diversos. Pois,  nossa percepção cotidiana, como nos lembra Maurice Merleau-Ponty (1908-1961),  não é um  mosaico, mas um conjunto de objetos diferenciados na estrutura de uma “figura sobre um fundo”, nesta relação o que  aparece como uma figura se mostra independente  da  nossa vontade e da nossa inteligência.

Por fim, nesse espetáculo o espectador é convidado a perceber o que esses corpos, ora presos no cubo vazado ora livres atados aos elásticos,  ensinam acerca da flexibilidade e da rigidez das tessituras dos relacionamentos humanos.  Quando jovens e adultos desenham na invisibilidade da cena a solidão como figura – que é mais sentida e dolorida na calada companhia do outro;   ou a solidão como fundo – no sentir-se bem consigo mesmo embora o outro esteja fisicamente ausente; constata-se  que na trama perceptiva da dança, o espaço não é uma característica da visão, mas sim da intuição.

Ida mara Freire
Professora Associada ao Centro de Ciências da Educação da UFSC, Pós- Doutorado em Dança pela Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul